segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Um país racista


Era uma menina preta, com os cabelos espichados pelos ferros quentes modernos, dessas que a gente já foi um dia
Data: 30/12/2018


Noite da chegada ao Rio vou ao Supermercado, defronte ao hotel fazer umas comprinhas básicas. Os caixas do supermercado estão em ebulição festiva. As filas quilométricas.
Por Arísia Barros no Raízes da África



     imagem- Raizes da África

Eu a vi de longe. Era uma menina preta, com os cabelos espichados pelos ferros quentes modernos, dessas que a gente já foi um dia.

Trazia nas mãos um pacote de fraldas e me perguntou se podia passar na minha frente, disse-lhe que sim.

Ao chegar próximo reparei no olhar, cruelmente observador, da moça do caixa para a menina. Olhava-a da cabeça aos pés, numa análise social, dessas que a gente preta está cansada de sentir.

O olhar da moça acompanhava a menina, como a expulsá-la do local. Olhava para o produto que ela tinha nas mãos e para os trocados que iriam pagar a mercadoria.

Havia uma aspereza tão exposta no olhar da moça  que resolvi questionar seus olhares e fitei-a ostensivamente e provocativamente para saber qual era o  propósito.

Sim, estava disposta a dar-lhe um troco, com palavras rudes, e esperava uma demonstração mais física..

Ah! Mas é claro que ela não faria, porque o racismo é esperto o bastante para não deixar rastros e ser judicialmente, sentenciado.

É o tal do racismo velado, que de velado não tem nada.

A menina, talvez, nada tenha percebido, mas, eu vi e aquilo me incomodou muito.

Na hora de passar o produto da menina, a moça tratou-a como se nada fosse e a menina com uma caixinha de confeitos na mão pediu:- Veja se meu dinheiro dá para comprar essa caixinha, também.

A reação da moça foi de uma insipidez terrível e não ouvi respostas. Ao saber que o dinheiro era insuficiente para adquirir a segunda compra, a menina começou num choro lamentoso e perguntei a caixa quanto era a tal caixinha:- Dois reais-respondeu ela.

Disse-lhe que entregasse a menina, que foi embora toda contente.

Depois de pagar minhas contas, saí de lá estranhamente triste.

Sim, ainda estamos sós.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Cotas são necessárias


Em evento com magistrados negros, Toffoli defende cotas raciais
Publicado em 08/11/2018 - 21:31
Por Felipe Pontes - Repórter da Agência Brasil Brasília















O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, defendeu hoje (8) ações afirmativas, como as cotas nas universidades com base em critérios étnico-raciais. Para ele, o racismo no Brasil é estrutural e tais políticas são eficazes na promoção de igualdade.

“Políticas afirmativas vão ao encontro da integração dos setores desfavorecidos, soerguendo em cidadania os indivíduos a quem é dirigida a discriminação racial sistêmica”, disse o ministro. “No racismo estrutural ou institucional, disseminado na sociedade brasileira, inexiste vontade livre e deliberada de discriminar, mas fazem-se presentes mecanismos e estratégias que dificultam a participação da pessoa negra no espaço de poder".

As declarações foram dadas durante o 2ª Encontro Nacional de Juízas e Juízes Negros, em Brasília. Toffoli destacou números do último censo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), feito este ano, segundo os quais apenas 1,6% dos magistrados brasileiros se declaram negros.

Edição: Fábio Massalli

domingo, 14 de outubro de 2018

Genocídio da Juventude Negra


Peça do grupo Teatro Terreiro Encantado reflete sobre o genocídio da juventude negra
Data: 12/10/2018
Em debate direto com a atualidade, Auto do Negrinho coloca em cena máscaras e bonecos
produzidos pela companhia para contar história inspirada em lenda que tem
como personagem central uma criança escravizada no sul do país
Por Larissa Corrêa para o Portal Geledés 


Foto: Will Cavagnolli


De 12 a 14 de outubro (sexta-feira a domingo) o Itaú Cultural recebe o grupo Teatro Terreiro Encantado, para três apresentações do espetáculo Auto do Negrinho. Dirigido por Cleydson Catarina, a peça inspira-se na lenda do Negrinho do Pastoreio para fazer um diálogo com o tema do genocídio da juventude negra nos tempos atuais.

Espetáculo produzido no ano passado, Auto do Negrinho parte do folclore nascido no Sul do país, no qual um menino negro escravizado é duramente castigado pelo senhor quando este sente falta de um dos cavalos que o jovem tinha que cuidar. E, ao pensar que o escravo já estava morto, o dono o deixa agonizando, mas ele ressurge, sem ferimentos, montado no cavalo que tinha sumido.

Para levar ao palco a estória de forma atual, o grupo Teatro Terreiro Encantado realiza o espetáculo todo com máscaras e bonecos feitos pela companhia, estimulando no público a reflexão a respeito do genocídio da juventude negra nos tempos de hoje. Para tanto, o diretor Cleydson Catarina também mostra a sua verve como ator, dividindo a cena com os artistas Uberê e Sandro Lima, que faz ainda as vezes de músico, juntamente com Rafael Fazzion.

Auto do Negrinho reforça a proposta do Terreiro Encantado de uso da oralidade das manifestações populares para fazer teatro que de maneira lúdica. Assim, convidam, ainda, o público a participar interativamente do espetáculo.

Sobre diretor e elenco
Cleydson Catarina começou a fazer teatro de rua encenando Autos no interior do Ceará. Estudou direção no Instituto Dragão do Mar, atuou no teatro popular do Movimento Escambo, trabalhando autos e teatro de rua no sertão do Rio Grande do Norte e Ceará. Em Recife, integrou Coco dos Pretos, Boi de Carnaval, Cafuringa (Teatro de Rua) e Maracatu Cambinda de Estrela, sempre dando consultoria cênica e interpretação musical, na construção de bonecos e confecção de figurinos – mesmas funções que exerceu depois em São Paulo com o grupo Os Inventivos, Buraco do Oráculo, Coletivo Negro e Grupo Clariô de Teatro. Em 2016, estreou A Casa das Mulheres da Lua, e em 2017, Auto do Negrinho.

Uberê é artista plástico, poeta, educador, ator e brincante. Compõe movimentos culturais da periferia da zona sul desde 2014, recitando poesias autorais e expondo artes visuais nos saraus da região. Participou até 2016 da organização do coletivo e da casa do Espaço Comunidade. Brinca samba de coco, compondo, cantando e dançando nas sambadas mensais do Grupo Candearte, e integra o Jongo do Embu das Artes e o Candongueiros do Campo Limpo. Pesquisa a ancestralidade e a identidade afroindigena, através da experiência como jovem periférico, artista influenciado pela cultura urbana, referências que leva ao Teatro Terreiro Encantado, pra fazer um teatro popular, de forma lúdica, ocupado com a militância política e social.

Rafael Fazzion começou a tocar aos oito anos no Teatro Popular Solano Trindade, onde estudou por mais de 10 anos ritmos como Samba de Roda, Maracatu, Côco de Roda, Jongo e Congada. Acompanhou artistas como Oswaldinho da Cuíca, Tobias da Vai Vai e Bocato. É autodidata em ritmos como Derbak e música Árabe, atuou como percussionista em aulas de dança afro e de danças populares, além de já ter acompanhado mestres de dança africana como Youssoff Kombassa e Moustapha Bangoura. Pesquisa a música do Oeste da África há mais de 10 anos, período no qual compôs o Ballet Afro Koteba. Fundou com Flavia Mazal a CIA Trupe Benkady, Cia Fankama Obi e o Teatro Terreiro Encantado na linguagem do popular.

Sandro Lima é formado em guitarra pelo CEM Tom Jobim. Estudou violão clássico e popular, canto coral, percussão e teatro. Como guitarrista, integrou as bandas Preto Soul e Al Anda Luz, e como violonista, acompanha o grupo Clarianas. É compositor e músico da trilha do espetáculo Dikanga Kalunga”, solo de dança negra contemporânea da bailarina Kanzelumuka, Cia. Nave Gris. Em 2016, lançou Paratudo, primeiro EP do trio OuroeChá, que acompanha o Mc Fino du Rap. Estudou máscaras cômicas e atualmente é músico e brincante de máscaras e bonecos no espetáculo O Auto Negrinho, do grupo de teatro Terreiro Encantado.

FICHA TÉCNICA
Direção: Cleydson Catarina
Atores e músicos: Cleydson Catarina, Uberê, Sandro Lima e Rafael Fazzion
Contrarregra: Fabio Santos
Técnico operador de luz: Rager Luan
Produção: Paula da Paz
SERVIÇO
AUTO DO NEGRINHO
Dia 12 de outubro (sexta-feira, feriado), às 19h
Dia 13 de outubro (sábado), às 20h
Dias 14 de outubro (domingo), às 19h
Diretor e ator: Cleydson Catarina. Elenco: Uberê, Sandro Lima e Rafael Fazzion.
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: Livre
Sala Multiúso (Piso 2)
Capacidade: 70 pessoas
Entrada gratuita
Distribuição de ingressos:
Público preferencial: 1 hora antes do espetáculo (com direito a um acompanhante, que deve retirar o ingresso ao mesmo tempo)
Público não preferencial: 1 hora antes do espetáculo (um ingresso por pessoa)
Estacionamento: Entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Se o visitante carimbar o tíquete na recepção do Itaú Cultural:
3 horas: R$ 7; 4 horas: R$ 9; 5 a 12 horas: R$ 10.
Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô
Fones: 11. 2168-1777
Acesso para pessoas com deficiência
Ar condicionado
Estacionamento: Entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Se o visitante carimbar o tíquete na recepção do Itaú Cultural:
3 horas: R$ 7; 4 horas: R$ 9; 5 a 12 horas: R$ 10.
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas.