quarta-feira, 8 de março de 2017

Vencer o racismo, muita força



OUTROS DIAS DA MULHER: Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar no Municipal do Rio
Date: 07/03/2017
 “Riam de mim quando eu dizia que queria ser atriz.” Estas foram as palavras usadas por Ruth de Souza, a primeira atriz negra a encenar no Theatro Municipal do Rio, ao contar sua história de enfrentamento ao racismo durante a infância, na série “Damas da TV”, exibida pelo canal pago Globonews, em 2014.





Por Luiz Carlos Ferreira Do Folha de São Paulo

No programa, a atriz, hoje com 96 anos e cerca de uma centena de atuações no teatro, TV e cinema, contou que no primeiro ano de escola foi às lagrimas ao ver em seu livro escolar um capítulo sugerindo que o formato da cabeça do negro fazia com que ele fosse intelectualmente inferior aos demais seres humanos.



Primogênita de dois irmãos, Ruth Pinto de Souza nasceu no Engenho de Dentro (Rio), em 12 de maio de 1921. Mudou-se ainda pequena com a família para um sítio no município de Porto Marinho, interior do Estado de Minas, onde seus pais dependiam da roça para a sobrevivência da família.

Aos nove anos, com a morte do pai, retorna com a mãe e os irmãos para o Rio, onde passam a viver em uma vila de lavadeiras e jardineiros, em Copacabana.

O DESPERTAR PARA A SÉTIMA ARTE 
A paixão pelo cinema surgiu na infância, depois de assistir ao filme “Tarzan, o Filho da Selva” (1932). Desde então trabalhar no cinema passou a ser o seu maior propósito de vida.

Anos mais tarde, na juventude, folheando a Revista Rio -do jornalista Roberto Marinho-, a atriz leu uma reportagem sobre um grupo de jovens atores negros que se reunia no Teatro do Estudante do Brasil (TEB), no Rio. Era o embrião do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944 pelo ator, professor, político e ativista negro Abdias do Nascimento e fundamental para a valorização do artista negro no país.

 Na noite de 8 de maio de 1945, como integrante do TEN, Ruth de Souza entra para a história ao ser a primeira atriz negra a encenar no palco do tão prestigiado e elitista Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com o espetáculo “O Imperador Jones” [“The Imperator Jones”], do dramaturgo americano Eugene O’Neill (1888-1953).

Em 1947, ainda fazendo parte do grupo teatral de Abdias, a atriz participa da montagem “O Filho Pródigo”, de Lúcio Cardoso (1912-1968), quando recebe o prêmio de atriz revelação do ano.

A estreia no cinema aconteceu em 1948, por indicação de Jorge Amado (1912-2001), quando a atriz fora escalada junto com os já consagrados Grande Otelo (1915-1993) e Anselmo Duarte (1920-2009) para o elenco de “Terra Violenta”, uma adaptação da obra do escritor baiano produzida pela Atlântida Cinematográfica.

ESTÁGIO NOS EUA
O ano de 1950 foi um dos mais memoráveis para a atriz. Com a mão do teatrólogo e diplomata Paschoal Carlos Magno (1906-1980), Ruth de Souza foi agraciada com uma bolsa de estudos cedida pela Rockefeller Foundation, para cursar um ano de teatro e cinema nos EUA.

Em Cleveland, no Estado de Ohio, além de atuar em peças, trabalhou como contra regra, assistente de direção e diretora de palco. Em sua passagem por Nova York, fez estágio na Academia Nacional de Cinema Americano e, depois, na Universidade Harvard, em Cambridge.

O RETORNO AO BRASIL
De volta ao país, e com a ajuda do diretor Alberto Cavalcanti (1897-1982), tornou-se uma das primeiras atrizes contratadas pela recém-criada Vera Cruz, onde participou de cinco produções.

No filme “Sinhá Moça” (1953), como coadjuvante, foi indicada ao prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza, concorrendo com as internacionais Katharine Hepburn (1907-2003), Michèle Morgan (1920-2016) e a vencedora Lilli Palmer (1914-1986), para quem perdeu o prêmio por pouca diferença.

Com a chegada da TV no Brasil, em 1950, Ruth passou a fazer teleteatros na pioneira Tupi, onde já se apresentava em musicais. No decorrer da década atuou nos filmes “Candinho” (1954) -ao lado de Mazzaroppi-, “Ravina” (1958), “Favela” (1960) e “Assalto ao Trem Pagador” (1962), entre outros.

Conciliando cinema, televisão e teatro, atuou nas peças “Vestido de Noiva” (1958), “Oração para uma Negra” (1959) e “Quarto de Despejo” (1961), onde interpreta a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), moradora da favela do Canindé, na zona norte de São Paulo.

NA TELEDRAMATURGIA
A primeira telenovela veio em 1965, em “A Deusa Vencida”, na TV Excelsior. Três anos depois, em 1968, estreia na TV Globo com a trama “Passo dos Ventos”, onde interpretou uma mãe de santo, e, em 1969, torna-se a primeira protagonista negra na novela “A Cabana do Pai Tomás”, onde trabalhou ao lado do amigo e ator Sérgio Cardoso (1925-1972).

Na Globo, onde é contratada há quase 50 anos, fez mais de 30 novelas. Entre as de maior destaque estão “O Bem-Amado” (1973), “Helena” (1975), “Sinhá Moça” –1ª e 2ª versão (1986/2006)– e “Memorial de Maria Moura” (1994). A minissérie “Na Forma da Lei” (2010), foi a sua última atuação na emissora desde então.

 Seus trabalhos mais recentes no cinema foram em “O Vendedor de Pássaros” (2015) e em “As Filhas do Vento” (2005).

Perseguida pelo racismo, Ruth de Souza costuma dizer em entrevistas que sempre teve que brigar muito por bons papeis ao longo de seus mais de 70 anos de interpretações. Mas agradece constantemente aos autores Janete Clair (1925-1983) e Dias Gomes (1922-1999) pela possibilidade que proporcionaram a ela de representar personagens de maior relevância na TV.

Em 2016, Ruth de Souza foi homenageada na mostra “Pérola Negra”, que ficou em cartaz no CCBB de Brasília e de São Paulo, onde foram exibidos 25 de seus trabalhos mais marcantes.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Mídia racista e sempre



Racismo na mídia: entre a negação e o reconhecimento
por Coletivo Intervozes — publicado 29/07/2014 12h10, última modificação 29/07/2014 13h22
A visibilidade às discussões sobre o racismo dada pela TV Globo e o reconhecimento da violência decorrente dele são uma vitória para a luta por igualdade racial

TV Globo 





Brian (Lázaro Ramos) e Matias (Danilo Ferreira) em cena na novela Geração Brasil.
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Por Cecília Bizerra Sousa*

“Sempre que venho ao Brasil, assisto à TV para ver como o país se representa. Pela TV brasileira, nunca seria possível imaginar que sua população é majoritariamente negra”. Esta observação, entre tantas outras acerca dos desafios que ainda cabem à luta pela igualdade racial no Brasil e no mundo, foi feita pela ativista estadunidense Angela Davis, em conferência em Brasília na noite de 25 de julho, na 7ª edição do Latinidades – Festival da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha. “Não posso falar com autoridade no Brasil, mas às vezes não é preciso ser especialista para perceber que alguma coisa está errada se a cara pública deste país, majoritariamente negro, é branca”,acrescentou.

Referência mundial na luta contra o racismo e autora de vários livros e pesquisas na área, Angela Davis, hoje com 70 anos de idade e mais de 40 dedicados à militância e à pesquisa da temática, fala com a autoridade de quem tem uma vida dedicada ao tema. E acerta em cheio. Para além da invisibilidade dos negros e negras na mídia brasileira, o racismo midiático se evidencia pela própria negação do racismo (recordemos o livro do diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, Não somos racistas, lançado em 2006) e pela afirmação de estereótipos a partir do ponto de vista hegemônico, que colaboram para reforçar uma atitude e um sentimento de auto-desvalorização nos negros e negras, assim como o desinteresse dos veículos de comunicação por suas causas e ações.

Como bem cita o pesquisador brasileiro Muniz Sodré, no livro Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil, “a mídia funciona, no nível macro, como um gênero discursivo capaz de catalisar expressões políticas e institucionais sobre as relações inter-raciais, (...) que, de uma maneira ou de outra, legitima a desigualdade social pela cor da pele.” (SODRÉ, 1999, p.243). Ou seja, é no espaço midiático que ocorrem grande parte das relações étnico-raciais brasileiras.

Mas, se este espaço é um dos principais reprodutores da lógica racista, pode também servir para promover a igualdade racial num país plural como o Brasil. Apesar de ainda haver muito por se construir até que a “cara pública” do nosso país – sobretudo aquela que se apresenta na televisão aberta – seja de fato a representação da nossa diversidade, há que se considerar alguns aspectos positivos e mudanças neste sentido. E dois exemplos recentes puderam ser vistos, em menos de 15 dias, na Rede Globo. A emissora dispensou, em dois momentos de sua programação (o programa Na Moral e a novela Geração Brasil), espaços significativos para a abordagem do racismo. E, no que se refere à terminologia, por exemplo, o assunto foi tratado sem eufemismos ou poréns, com este nome mesmo: racismo.

No programa Na Moral do dia 17 de julho, artistas e estudiosos negros falaram sobre o racismo na TV e suas experiências, a maioria dolorosas. Entre eles estava o cantor Thiaguinho, as atrizes Taís Araújo e Zezé Mota, o ator Aílton Graça e o cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo. Negros e negras falando sobre o racismo na TV. A única exceção foi o diretor Daniel Filho, que estava lá porque, no final da década de 1960, dirigiu a novela A Cabana do Pai Tomás, cujo protagonista era um escravo negro vivido por um ator branco (Sérgio Cardoso), que pintava o corpo, usava peruca e rolhas no nariz para compor o personagem. Daniel foi ao programa explicar esta escolha absurda que, obviamente, gerou polêmica, pois havia bons atores negros consagrados na época (a esposa de Pai Tomás, inclusive, era a atriz negra Ruth de Souza).

Outro exemplo recente e que merece destaque foi a cena da novela Geração Brasil, exibida ao final do capítulo do dia 22 de julho, exatamente antes do início do Jornal Nacional. Foi uma cena longa (pouco mais de 12 minutos de duração), que teve como centro uma conversa entre o personagem Brian Benson (vivido por Lázaro Ramos) e Matias (vivido pelo jovem ator Danilo Santos Ferreira). A cena se passa em um reality show chamado “Geração Nem-Nem” e trata do racismo que o jovem Matias sofreu na infância, o que contribuiu significativamente para que ele se tornasse mais um jovem nem-nem (nem trabalha, nem estuda).
Nesse momento, a novela falou abertamente sobre o racismo sofrido por crianças negras na infância, sendo qualificado nitidamente como violência. No palco do programa de auditório que exibe a cena do reality show, onde estão a namorada e os pais de Matias (ele negro, ela branca), a mãe de Matias (a pedagoga Rita de Cássia), ao recebê-lo, pede desculpas ao filho por não ter observado isso, apesar da sua profissão. E a apresentadora, Pamela Parker-Marra (vivida pela atriz Cláudia Abreu), apresenta estatísticas sobre a desmotivação escolar de crianças negras, expondo o papel do racismo nesses índices e relacionando a questão ao seu sucesso nos estudos.

É positivo perceber, em 2014, a luta pela igualdade racial nos meios de comunicação, que vem sendo travada com mais intensidade a partir de meados década de 90, dando retornos positivos. A visibilidade dada às discussões sobre o racismo, sem a utilização de termos para “suavizar” a expressão, e seu reconhecimento como violência pela principal emissora do país não são pouca coisa. Isso nos inspira e nos faz sentir que a luta é válida porque, como já disse o dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht, "nada deve parecer impossível de mudar". Muito menos o racismo.

* Cecília Bizerra Sousa é jornalista negra, mestra em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), integrante do Coletivo Intervozes e do Coletivo de Mulheres Negras Pretas Candangas.