domingo, 10 de setembro de 2017

continuamos a resistir



‘Os pacifistas’: professor de escola onde Duda foi morta não desistiu de mudar realidades




A primeira lição é a superação do corpo. O professor de educação física Marcelo Lima, de 42 anos, ensina que realizar repetidas vezes o mesmo movimento leva o atleta (no caso, o aluno) à perfeição. E isso é pedagógico: o esforço compensa — o que leva à superação das dificuldades escolares, e, depois, das dificuldades que a vida impõe, especialmente num lugar como a Pedreira. Esta é a favela onde o educador dá aulas na Escola municipal Jornalista Daniel Piza. Marcelo é um Pacifista. O primeiro da série de histórias que o EXTRA contará. Em meio à guerra, ele e outros cariocas desafiam as armas com amor. Amor que o fez enfrentar uma terceira lição: a superação de suas próprias fraquezas.


Por Bruno Alfano Do Extra
Foi na Escola municipal Jornalista Daniel Piza onde Maria Eduarda, de 13 anos, foi morta, em março, atingida por uma bala perdida. Ela estava praticando basquete no projeto de esporte criado, em 2015, pelo professor Marcelo, que ainda tentou proteger seus estudantes durante aquele confronto. Mas era impossível — ele, um super-professor, precisava ser o próprio Super-Homem, de peito de aço, para parar a chuva de balas.

O educador ficou quatro meses afastado se recuperando da tragédia. Mas voltou. Voltou para continuar o trabalho que já fez com que seis alunos fossem contemplados, em 2016, com bolsas de estudos em poderosos colégios particulares.

— O bom é perder o jogador para outros times quando eles conseguem as bolsas — brinca o professor, que, em tratamento, ainda não se sente bem para falar sobre o que viveu no traumático 30 de março.

O objeto central da formação dos seis times da escola (no vôlei, basquete e handebol masculino e feminino) é fazer com que os alunos se destaquem em competições colegiais e consigam fazer a próxima etapa escolar, o ensino médio, em colégios particulares. Mas não é só isso. Os meninos do projeto (no ano passado, 72 jovens diferentes participaram em algum momento de algum treinamento) são afastados das ruas: passam as manhãs em aula e as tardes na quadra da escola. Além disso, saem da comunidade para disputar competições. Já jogaram em Petrópolis. Atualmente, o time masculino de vôlei está no torneio Intercolegial, disputado no Sesc Tijuca.

— Eu não tenho pretensão nenhuma de formar atletas. Mas cidadãos — afirma Marcelo.

Os campeonatos não aliviam as escolas públicas: é preciso dinheiro para fazer as inscrições. O material também não tem em quantidade ideal. Mais bolas sempre ajudam o treinamento. Para tudo isso, uma receita simples. O professor Marcelo Lima começou a pegar coisas da própria casa para rifar. Os alunos são incumbidos de andar pela comunidade vendendo os bilhetes.

Um dos que corre pelos prédios e casas do morro da Pedreira, batendo de porta em porta com a rifa na mão, é Elizeu Pereira, ponteiro forte, camisa 11 do time de vôlei, de 15 anos, que cursa o 9º ano no colégio. O garoto estava ao lado de Maria Eduarda na hora da tragédia. Tentou ajudá-la a se esconder. Não deu. Pegou a amiga morta nos braços até se dar conta de que não havia mais o que fazer.

— Eu nunca vou esquecer o que eu vivi naquele dia — sentencia o rapaz.

Até o ano passado, Elizeu jogava ao lado do irmão gêmeo, Elias. Agora, são adversários — já que o ex-companheiro conseguiu uma bolsa num colégio particular. A meta é voltar a jogar lado a lado com Elias.

— Eu quero conseguir isso que o meu irmão conseguiu também. Vou me formar e ser um jogador de vôlei. Meu irmão diz que está conhecendo um outro mundo lá — diz o menino, morador da Pedreira, e um dos destaques do time: — Quero fazer o mundo descobrir o lugar onde eu moro. Quero mostrar que na favela também tem talento.

O sonho do menino reflete as ideias da equipe pedagógica. A coordenadora Claudielle Pavão, defende a educação através do afeto. E não no sentido apenas de carinho — broncas, num time, são mais do que normais, basta lembrar do multicapenão Bernardinho. Aqui, ela fala do afeto no sentido de ser afetado, marcado, pela escola. Algo que os alunos levarão para fora das salas de aula e das quadras.

— A gente vê que os meninos se relacionam de uma forma diferente com a escola. Eles passam a cuidar melhor dos materiais, têm mais disciplina — conta Claudiele.

— Começamos a jogar fora dos jogos da prefeitura no ano passado. Somos três no projeto. Eu, o Victor Ventura e o Cláudio Gama. Tudo o que fazemos é porque temos o apoio da direção. O objetivo não é ser campeão. A ideia é que outra escola leve eles a outros lugares. Tem alunos também que foram chamados para clubes, mas há o problema de passagem. Porque o RioCard só é de graça para ir à escola. Mais alunos nossos poderiam jogar em grandes clubes, mas não conseguem pagar o transporte. O funil para eles jogarem profissionalmente é grande. O Rio tem poucos times. Mas penso mesmo é na formação, no que vamos deixar para os jovens, em termos de compromisso, de disciplina e de portas abertas — diz Marcelo.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Os negros egípcios



A revolução de Aquenáton, o faraó que acabou com 2 mil deuses e instaurou o monoteísmo no Egito











Desde o início de seu reinado, o faraó Aquenáton e sua mulher Nefertiti decidiram desafiar todo o sistema religioso do Antigo Egito. Dispostos a sacudir as bases de sua sociedade, eles criaram ideias que levariam o império à beira do abismo. 

O casal começou a reinar durante os anos dourados da civilização egípcia, por volta de 1.353 a. C., quando o império era o mais rico e poderoso do mundo —as colheitas eram abundantes, a população, bem alimentada, os templos e palácios reais estavam cheios de tesouros e o exército obtia inúmeras vitórias contra todos os inimigos. Todos acreditavam que o sucesso vinha por conseguirem manter os deuses felizes. 

Foi então que Aquenáton chegou ao trono com o ímpeto de modificar uma religião de 1,5 mil anos de idade. 

Somente o sol
A ideia era revolucionária: pela primeira vez na história, um faraó queria substituir o panteão de deuses egípcios por uma única divindade — o deus Sol, ou Atón, o criador de todos. 

A proposta era considerada uma heresia. Mas como o faraó era considerado um deus na terra, tinha poderes ilimitados para modificar o que quisesse. Ele decretou que os 2 mil deuses que eram adorados no Egito havia mais de um milênio estavam extintos. Suas aparências humanas e animalescas foram substituídas pela forma abstrata do Sol e de seus raios. 

Para os poderosos sacerdores tradicionais, que haviam dedicado suas vidas inteiras aos deuses antigos, a mudança de doutrina era uma catástrofe. Eles praticamente haviam governado o Egito, agora eram dispensáveis — e formavam um grupo perigoso de inimigos para Aquenáton. 

No quinto ano de seu reinado, o faraó decidiu que deixaria a cidade de Tebas e se instalaria ao norte do rio Nilo. 

Rumo ao futuro
Àquela altura, era evidente que Aquenáton queria romper com o passado. Ele deu a Nefertiti igualdade de poderes e o título de Grande Esposa Real. Juntos eles viajam 320 quilômetros e mandaram construir uma cidade no local onde hoje fica o município de Amarna.

Sobre uma rocha que ainda existe nas colinas da região, está escrita uma proclamação pública composta por Aquenáton que explica o motivo que o levou a escolher precisamente aquele lugar. Ele teria sido comandado pelo próprio deus Sol, que o mandava edificar ali. 

A comunicação teria sido feita por meio de um sinal: a região é cercada de colinas, e em certas épocas do ano o Sol se põe entre elas, criando a forma do hieróglifo do horizonte. Aquenáton interpretou isso como um sinal. 

Horizonte de Atón
Millhares de pessoas de Tebas foram trazidas para construir, decorar e administrar a nova capital, que chegou a ter população de 50 mil pessoas. 

A cidade tinha poços, árvores e jardins florescendo no meio do deserto. Casas, palácios e templos ao deus único foram criados em tempo recorde. 

O local foi batizado de Ajetatón —horizonte de Aton— e se tornou o novo coração político e religioso do império, e o centro de um novo culto. 

Não só a capital e a religião mudaram. A revolução iniciada pelo casal real trouxe outras novidades: nos costumes. 

Gravuras cheias de detalhes encontradas em Amarna mostram momentos íntimos da vida da família real, como Aquenáton e Nefertiti abraçando suas filhas. Até então, nenhuma família real egípcia havia sito retratada em demonstrações de carinho. 

São obras espontâneas e cheias de vida se comparadas com a arte egípcia anterior, que tende a ser mais estática e monumental. 

As estátuas do faraó que ainda existem possuem as mesmas qualidades. A sua postura, de pé, com os braços cruzados sustentando insígnias reais, é comum. Mas sua fisionomia é completamente diferente da dos soberanos que vieram antes e depois, que costumam ter semblantes fortes e viris.

Aquenáton, ao contrário, tem um rosto comprido, com um nariz grande que aponta para sua barba. Seus inusitados lábios carnudos, seus quadris largos e sua barriga um pouco proeminente remetem a uma sensualidade feminina. 

Oração ao ar livre
A arquitetura do período também demonstra um desejo de romper com o passado. Os templos tradicionalmente fechados se afunilavam, com o piso levemente levantado e o teto caído, e pouquíssima entrada de luz. 

O culto ao Sol trouxe santuários ao ar livre, algo que nunca havia sido feito em grande escala. 

Em certo momento, os únicos fiéis autorizados a entrar nos templos eram o faraó e sua mulher. A partir de textos encontrados nos dias de hoje, os estudiosos teorizam que Aquenáton e Nefertiti passaram a acreditar que somente eles podiam se comunicar com Aton. O faraó seria filho de Deus e Nefertiti também seria divina - os súditos deveriam adorá-los. 

Foi o ápice de sua revolução religiosa. 

Queda
No entanto, as coisas começaram a desandar. Os súditos não haviam de fato abandonado a adoração aos outros deuses, então Aquenáton ordenou que todas as imagens dos deuses antigos fossem destruídas, especialmente as do deus maior do panteão, Amon-Rá.

Também mandou seus soldados apagarem a memória de todos os deuses em suas terras. No fim de seu reinado, sua revolução se enfraqueceu - como ele se recusava a sair da nova cidade, era visto como fraco e o império como vunerável a invasões. 

Tábuas de argila encontradas em Amarna mostram o estado em que se encontrava o império. Uma delas foi enviada pelo governante de um dos países vizinhos protegidos pelo faraó. Ele pedia que o Egito enviasse tropas para ajudá-lo a manter os hititas, inimigos do império, sob controle. 

"Já pedi, mas não fui respondido. Não me enviaram a ajuda de que preciso", se queixava o governante. Aquenáton nunca enviou tropas e o Estado vizinho caiu nas mãos dos hititas — o exército estava tão ocupado em missões de perseguição religiosa que o Egito perdeu territórios, poder, posses e status no continente. 

Muitas tragédias
Nas paredes do túmulo de Aquenáton está gravado o drama da família.

Apesar de estar muito danificada, é possível ver uma cena de luto. Umas das princesas morreu e seus pais aparecem chorando - algo sem precedentes, já que as famílias reais jamais demonstravam emoções em público. 

Outras evidências indicam que Aquenáton perdeu mais de uma filha, provavelmente por causa da peste, que arrasava a região na época. 

Epidemias do tipo podiam matar até 40% da população, e, como era faraó, Aquenáton era considerado pessoalmente responsável pela desgraça. Para os súditos, a catástrofe era resultado de uma ofensa feita aos antigos deuses. 

No pico da crise, a rainha Nefertiti morreu e o soberano perdeu a mulher que o havia acompanhado desde o princípio. 

Paraíso perdido
O paraíso de Aquenáton estava à beira do colapso. O Egito estava perdendo sua riqueza e poder. 

Treze anos depois da fundação de sua cidade, Aquenáton morrreu. Há quem acredite que ele tenha sido assassinado para que seu reinado terminasse. 

A cidade foi abandonada e, mais tarde, sistematicamente destruída e apagada dos registros. Também foram esquecidos o culto à Atón e o próprio Aquenáton, que durante muito tempo só foi lembrado por ser, segundo indicam os registros, o pai do grande Tutancâmon, seu sucessor. 

Foi Tutancâmon quem resgatou os antigos deuses e restaurou o poder e a prosperidade do Egito. Os sacerdotes voltaram a ter seu antigo poder, e a vida voltou à normalidade.
Nenhum outro faraó egípcio voltou a tentar mudar a ordem estabelecida e desafiar a religião tradicional. Os que vieram após Aquenáton se esforçaram por destruir todos os registros de seu culto herege. 

Suas estátuas foram derrubadas e as pedras dos templos usadas como material para a construção de novos prédios. As rochas esculpidas foram escondidas que ninguém voltasse a vê-las. 

Isso acabou preservando-as para a posteridade: na década de 1920, elas começaram a reaparecer. Muito do que sabemos de Aquenáton e do culto a Atón vem delas.